( 28 octobre, 2009 )

Os preconceitos dos outros

Há uma coisa que nunca falha: quem é muito contra certos preconceitos acaba sempre adotando outros, tão ruins ou piores. Eu diria mesmo que quanto mais dedicação contra alguns preconceitos mais facilmente você adota outros. Quase se pode dizer quando seus novos preconceitos começam: é quando você faz ou diz uma grande merda sem perceber, apenas por preconceito.

Uma grande merda é o que vi no blog do Alex Castro, sobre Júlio Severo (os destaques são do Alex…):

Dois posts de um site católico esperneando contra Deborah Duprat por causa do casamento homossexual:
- Carta de Marcio de Assis Santos Cordeiro às autoridades brasileiras sobre a ADIN 4277
- Manobra abortista e homossexualista do Presidente Lula
- Carta para a Procuradora Deborah Duprat (o melhor, não deixem de ler, cheios de argumentos jurídicos)

O Júlio Severo não é católico. É até anti. Não se trata de rotular. Trata-se de pesquisar e constatar. O Alex chamou Júlio de católico – ou melhor, chamou o blog do Júlio de “site católico”. Por que o Alex fez isso? É que o Alex tem preconceito social (contra a classe “mérdia”), religioso (contra os cristãos em geral e contra católicos em particular) e ideológico (contra conservadores). O Alex debate muito contra conservadores de classe “mérdia” sobre os preconceitos contra negros, mulheres e gays. Daí, ele acha que quem discorda dele sobre preconceito são católicos conservadores de classe “mérdia”. O que é preconceito…

É quase a mesma coisa que um policial suspeitar mais dos negros que dos brancos – já que topa mais com bandidos negros que com bandidos brancos. Quase. Quase porque é pior: um tira muitas vezes não tem como eliminar a suspeita sem pelo menos revistar o negro, mas ao Alex bastava 5 minutos de Google para saber a religião do Júlio. Se o Alex estivesse mesmo interessado em conhecer o assunto de que fala, em vez de simplesmente rotular quem discorda dele.

Os preconceitos religioso, social e ideológico também são piores que os preconceitos raciais e sexuais por outro motivo: no primeiro caso, o preconceituoso tem orgulho de sua ideologia, religião (ou falta de) e classe e tem prazer em depreciar os demais. No segundo, há muita vergonha nesses preconceitos. Racistas e, principalmente, homofóbicos sofrem muito por não poderem agir com naturalidade com negros e gays. E isso nem é pela patrulha politicamente correta: é muitas vezes um caso de atração ou identificação reprimida. Muitos racistas têm sangue negro e se envergonham disso. Muitos homofóbicos são gays reprimidos. E por isso sofrem mais do que pela patrulha politicamente correta, que na verdade é uma boa desculpa para eles justificarem e manterem seus preconceitos: Eu até acho que eles sofreriam mais, se deixados em paz. É da natureza: quem tem preconceito racial ou sexual, sofre. Quem tem preconceito religioso, social e ideológico faz sofrer aos outros.

Mas, o que eu acho do Júlio? Já disse, aqui. O que eu acho da Deborah Duprat? Acho que, considerando apenas seus 22 dias como Procuradora-Geral da República interina (como esse povo gosta de títulos pomposos!), ela acerta mais do que erra. E o que eu acho de cotas raciais nas universidades públicas? Também já disse, aqui.

__________ 

Update

É que o Alex resolveu responder… ou melhor, resolveu esclarer alguns pontos, aqui e aqui. É incrível, mas eu não discordo de tudo o que o Alex diz. Acho que nem da maioria. Eu chego a dizer que concordo com quase tudo aqui e acho isso digno de resposta. Por partes:

Aqui, concordo com tudo menos com a omissão sobre a questão principal: por que preconceito contra negros, mulheres e gays (e, vá lá, ateus) é abominável, mas preconceito contra religiosos, classe média e conservadores é ok? A propósito, achar as religiões tolices não é preconceito, mas acreditar em tudo contra os religiosos é.

E aqui, são duas perguntas. À primeira respondo: sim, há preconceito contra a classe média no Brasil; e à segunda, respondo: pessoalmente, nunca senti, nunca sofri, mas já vi: quando o pequeno João Hélio Fernandes foi morto por uma quadrilha de pobres, não ouvi ninguém dizer que todos os pobres são escória, mas ouvi muita gente dizer que ele tinha mais é que ser morto mesmo, porque era um “burguesinho”.

Um bom exemplo de preconceito contra a classe “mérdia” é esse artigo. (Se você ler com atenção verá preconceito contra os pobres, também).

2 Commentaires à “ Os preconceitos dos outros ” »

  1. Fabio Marton
    Fabio Marton a dit:

    Você quer saber, acho que o preconceito não é com católico, é com evangélico. O Alex vê um conservador religioso sendo levado mais ou menos a sério, e escrevendo mais ou menos articuladamente, não consegue imaginar que o cara não seja católico.

    É uma hipotese. Bem, o fato é que o Alex deveria se informar melhor um pouco antes de sair por aí rotulando. E nem custava muita coisa, só alguns minutos de google.

    Note que eu nem entrei no mérito do Júlio ter dito ou não besteira, porque eu não tive tempo de ler os links que o Alex escolheu. Talvez eu faça isso logo. - Jorge Nobre

  2. Tiago
    Tiago a dit:

    Ele já se tornou ridículo há muito tempo.

    Eu não o levo a sério, de qualquer forma. Escrevo no blog dele para me divertir. - Jorge Nobre

Fil RSS des commentaires de cet article. | Trackback

Poster un commentaire

|